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Teoria do Conhecimento – Essência, Origem, Possibilidade

31 de Janeiro de 2011


INTRODUÇÃO
A necessidade de procurar explicar o mundo dando-lhe um sentido e descobrindo-lhe as leis ocultas é tão antiga como o próprio Homem, que tem recorrido para isso quer ao auxílio da magia, do mito e da religião, quer, mais recentemente, à contribuição da filosofia, da ciência e da tecnologia.
Mas é sobretudo nos últimos séculos da nossa História, que se tem dado a importância crescente aos domínios do conhecimento e da ciência. E se é certo que a preocupação com este tipo de questões remonta já à Grécia antiga, é porém a partir do séc. XVIII que a palavra ciência adquire um sentido mais preciso e mais próximo daquele que hoje lhe damos.
É também sobretudo a partir desta época que as implicações da actividade científica na nossa vida quotidiana se têm tornado tão evidentes, que não lhe podemos ficar indiferentes.

a) O que é o conhecimento em geral?
b) Como se forma e se desenvolve?
c) O que distingue o senso-comum do conhecimento científico?
d) O que é o conhecimento científico?
e) Como se adquire?
f) O que temos implícito quando dizemos que conhecemos determinado assunto?
g) Em que consiste a prática científica?
h) Que relação existe entre o conhecimento científico e o mundo real?
i) Quais as consequências práticas e éticas das descobertas científicas?
são alguns dos problemas com que nos deparamos frequentemente.

TEORIA DO CONHECIMENTO
A teoria do conhecimento interessa-se pela investigação da natureza, fontes e validade do conhecimento. Entre as questões principais que ela tenta responder as seguintes são as decisivas para todas as outras perguntas e suas respostas:
a) O que é o conhecimento?
b) Como o alcançamos?
c) Podemos conseguir meios para defendê-lo contra o desafio céptico?
Essas questões são, implicitamente, tão velhas quanto a filosofia. Mas, primordialmente na era moderna, a partir do século XVII em diante – como resultado do trabalho de Descartes (1596-1650) e Locke (1632-1704) em associação com a emergência da ciência moderna – é que ela tem ocupado um plano central na filosofia. Basicamente é conceituada como o estudo de assuntos que outras ciências não conseguem responder. Este estudo divide-se em três partes. Distintas correntes filosóficas tentam explicá-las:

I- Origem do Conhecimento.
II- Essência do Conhecimento.
III – Possibilidade do Conhecimento.

QUESTÕES FUNDAMENTAIS DO CONHECIMENTO
A) O Conhecimento Quanto à Origem
A polémica racionalismo-empirismo tem sido uma das mais persistentes ao longo da história da filosofia, e encontra eco ainda hoje em diversas posições de epistemólogos ou filósofos da ciência. Abundam, ao longo da linha constituída nos seus extremos pelo racionalismo e pelo empirismo radicais, as posições intermédias, as tentativas de conciliação e de superação, como veremos a seguir.
• Empirismo (semi-empirismo ou empirismo crítico)
“O empirismo pode ser definido como a asserção de que todo conhecimento sintético é baseado na experiência.” (Bertrand Russell – 1872-1970).
Conceitua-se empirismo, como a corrente de pensamento que sustenta que a experiência sensorial é a origem única ou fundamental do conhecimento.
Originário da Grécia Antiga, nomeadamente com a teoria psicogenética de Protágoras – c. 490-c. 420 a. C., o empirismo foi reformulado através do tempo no fim da Idade Média (Guillaume D’Occam – 1290-1343) e Moderna (Francis Bacon – 1561-1626), assumindo várias manifestações e atitudes, tornando-se notáveis as distinções e divergências existentes.

Porém, é notório que existem características sem as quais se perde a essência do empirismo. Para além das outras, a sua característica fundamental é a tese de que todo e qualquer conhecimento de regularidades e de factos, ou seja, qualquer conhecimento objectivo, é sintético (conhecimento que acrescenta conhecimento a partir da conjugação de conceitos distintos e não apenas de análise de conceitos – exs: “o dinheiro é trabalho na forma abstracta”; “Sólon foi um político e poeta que contribuiu para a criação na Grécia do primeiro sistema democrático da História”) aure a sua origem na experiência e só é válido quando verificado por factos metodicamente observados, consistindo em verdades fundadas no processo de pesquisa dos dados sensíveis.
Como já foi dito anteriormente, existem no empirismo divergências de doutrina, e é exactamente estas que abordaremos a seguir. São três, as linhas empíricas: a integral, a moderada e a científica.
1- O empirismo integral reduz todos os conhecimentos – inclusive os matemáticos – à fonte empírica, àquilo que é produto do contacto directo e imediato com a experiência.
Quando são reduzidos à mera experiência sensível, temos o sensismo (ou sensualismo). É o caso de John Stuart Mill – 1806-1873, que na obra Sistema da Lógica diz que todos os conhecimentos científicos resultam de processos indutivos, não constituindo excepção as verdades matemáticas, que seriam resultado de generalizações a partir de dados da experiência. Ele apresenta a indução como único método científico e afirma que nela se resolvem tanto o silogismo quanto os axiomas matemáticos.
Mas já antes David Hume – 1711-1776, o mais emblemático dos empiristas, cuja doutrina é designada por empirismo crítico, fazia derivar todo o conhecimento válido, legitimável como conhecimento, estritamente da experiência, declarando que conhecemos apenas o conteúdo perceptivo da experiência sensível. Este conteúdo sensorial são as ideias do nosso pensamento e o ser das coisas é o facto de serem percebidas.
Ora, uma vez que não temos apenas ideias de coisas mas ideias da “relação” entre elas, pelas quais temos a pretensão de as explicar, por exemplo, através da ideia de “causa”, um empirismo coerente, radical, dirá, com Hume, que todas as ideias explicativas não passam de generalizações psicológicas empíricas e não consistem em representações da textura dinâmica real do mundo. Tudo se passa dentro da nossa mente e uma ideia central da ciência como a de “causa” é apenas um efeito mental do hábito. Habituamos-nos a ver o Sol nascer todos os dias e pensamos que há uma causa objectiva que o faz obrigatoriamente nascer todos os dias.
Aliás, para o empirismo, todas as relações que julgamos objectivas são julgadas como tais pela ausência natural de reflexão sobre a sua origem psicogenética. Todas elas resultam do princípio da associação, que se diferencia nos modos da sucessão, de contiguidade, de semelhança e de congruência ou justaposição. O que acrescenta o sujeito é a reflexão, não necessariamente a noção da origem de tais relações e ideias mas a consciência das ideias e relações sentidas.
As relações entre ideias e as ideias propriamente ditas constituem uma distinção que é paralela à que o racionalista Leibniz – 1646-1716 – fez entre as verdades de razão e as verdade de facto, mas a explicação dada é muito diferente. Tomemos, por exemplo, a proposição (relação entre ideias) fundamental para as operações aritméticas, de que “iguais substituídos por iguais dão resultados iguais”. É uma proposição analítica e necessária: é analítica porque resulta da noção matemática de “igualdade” e não precisa, para ser enunciada e compreendida, de qualquer referência a factos; é necessária porque não pode ser de outra maneira.
Contudo, em última instância, as ideias de “relação” procedem, como todas, dos factos. Estes, por sua vez, são construções psicológicas e não leis objectivas.
2- O empirismo moderado ou semi-empirismo, também denominado genético-psicológico, defendido por John Locke – 1632-1704, explica que a origem temporal dos conhecimentos parte da experiência, mas não reduz a esta a validade do conhecimento. Há conhecimentos não directamente intuídos por percepção sensível, como os metafísicos (exs: “Deus, “mundo”, obtidos por inferência causal, e “espírito”, apreendido por intuição pura). Há conhecimentos verdadeiros ‘a priori’, não-empíricos (quais sejam os matemáticos – ex: ” π = L/d” ou razão entre o comprimento da circunferência e o seu diâmetro; “número irracional: aquele cujas casas decimais são infinitas e irregulares; quantidade que não tem qualquer medida determinada em relação com a unidade”; “número primo: todo aquele que só é divisível pela unidade e por si mesmo”; “número imaginário: número que resulta do cálculo de certas equações e que não corresponde a qualquer tipo de entidade numérica de algum modo intuível: i = √-1″).
Uma das obras baseadas nessa linha é, como já dissemos, a de John Locke (Ensaios sobre o Entendimento Humano), na qual ele explica que as sensações, sendo aquilo em que as “ideias” empíricas consistem, são ponto de partida de tudo aquilo que se conhece no mundo empírico ou dado na experiência. Todas as ideias, simples e complexas, relativas ao conhecimento da realidade fenoménica, física, são elaborações de elementos que os sentidos recebem em contacto com a realidade sensível.
Para os moderados há, pois, verdades universalmente válidas, como as matemáticas, cuja validade não assenta na experiência, e sim no pensamento. Na doutrina de Locke, existe como tal a admissão de uma esfera de validade lógica ‘a priori’ e, portanto não empírica, no que concerne aos juízos matemáticos.
3- Por fim, há o empirismo científico, que admite apenas como válido, ou antes, verdadeiro, o conhecimento oriundo da experiência ou verificado experimentalmente, atribuindo aos juízos analíticos significações de ordem formal enquadradas no domínio das fórmulas lógicas, que constituem as regras de consistência do pensamento. Esta tendência está longe de alcançar a almejada “unanimidade científica”. É que há objectos no limite da ciência que não podem ser observados, pelo menos de momento, mas apenas tidos por hipotéticos, inferidos a partir da necessidade de completar ou corrigir teorias que não dão conta da complexidade dos fenómenos que procuram explicar. São exemplos, o bosão de Higgs para explicar a “massa” e os fenómenos que terão ocorrido nos primeiros instantes do universo. Ou seja, a ciência é mais um projecto metódico de saber do que um saber garantido.
• Racionalismo (idealista ou materialista)
É a corrente que assevera o papel preponderante e fundamental da razão no processo cognoscitivo, pois, os factos não são fontes de todos os conhecimentos e não nos oferecem condições de “certeza”.
1- Um dos grandes representantes do racionalismo, Gottfried Leibniz – 1646-1716, afirma em sua obra Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, que nem todas as verdades são “verdades de facto”.
Ao lado delas, existem as “verdades de razão”, que são aquelas inerentes ao próprio pensamento humano e dotadas de universalidade e certeza – como por exemplo, os princípios de identidade (“uma coisa é igual a si mesma”) e de razão suficiente (“tudo o que existe tem em si a razão da sua existência” ou, por outras palavras, nunca é o caso de uma existência ser um puro acaso) -, enquanto as “verdades de facto” são contingentes e particulares (“aqui os Invernos são frios”), implicando sempre a possibilidade de correcção, ou falsificação, sendo válidas dentro de limites determinados.
Ainda retratando o pensamento racionalista, encontramos René Descartes – 1596-1650, adepto do inatismo, que afirma que somos todos possuidores, enquanto seres pensantes, a partir do desenvolvimento interno e autónomo do pensamento, de uma série de princípios evidentes, ideias inatas (ex: “todos os corpos são extensos, possuindo uma quantidade contínua”; “todos os corpos são divisíveis”; “quantidades postas numa certa relação ou entre si podem resultar numa quantidade igual à de outras relações entre quantidades: 5 + 3 = 2 + 6 = 8″; “duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si”, etc.), e operações igualmente inatas como as de “análise” e de “síntese”, que servem de fundamento lógico (princípios evidentes e regras de dedução) a todos os elementos com que nos enriquecem a percepção e a representação.
Para ele, a razão funda os princípios do conhecimento por si mesma, independentemente da experiência.
Esses dois pensadores podem ser classificados como representantes do racionalismo ontológico, que consiste em entender a realidade como racional, ou em racionalizar o real, embora as ideias não sejam a realidade, e de maneira que a explicação conceitual mais simples seja tida em conta da mais segura explicação da realidade.
2- Existe também uma outra linha racionalista, originada de Aristóteles – 384-322 a. C., denominada intelectualismo, que reconhece a existência de “verdades de razão” e, além disso, atribui à inteligência função positiva no acto de conhecer. A razão não contém em si mesma, verdades universais como ideias inatas, mas atinge-as à vista dos fatos particulares que o intelecto coordena (“os indivíduos percepcionados estão reunidos em classes que compreendem as características semelhantes que conferem a forma à matéria de cada um deles, forma essa que é o seu próprio conceito”). Concluindo: o intelecto extrai os conceitos ínsitos no real, operando sobre as imagens que o real oferece.
Hessen, um dos adeptos contemporâneos do intelectualismo, lembra que há em Aristóteles uma concepção metafísica da realidade como condição de sua gnosiologia, que é conceber a realidade como algo de racional, contendo no particularismo contingente de seus elementos as verdades universais que o intelecto “lê” e “extrai”. Realiza-se assim uma adequação plena entre o entendimento e a realidade, no que esta tem de essencial.
3- Por fim, devemos citar uma ramificação do racionalismo que alguns autores consideram autónoma: o criticismo.
O criticismo é o estudo metódico prévio do acto de conhecer e dos modos de conhecimento, ou seja, uma disposição metódica do espírito no sentido de situar, preliminarmente o problema do conhecimento em função da relação “sujeito-objecto”, indagando as suas condições e pressupostos.
O criticismo aceita e recusa certas afirmações do empirismo e racionalismo clássico. Entretanto, devemos entender tal posição como uma análise crítica e profunda dos pressupostos do conhecimento.
O seu maior representante, Immanuel Kant – 1724-1804, tem como marca distintiva a determinação a priori das condições lógicas das ciências.
Ele declara que o conhecimento não pode prescindir da experiência (“a bola move-se quando lhe dou um pontapé”), a qual fornece o material cognoscível e nesse ponto coincide com o empirismo.
Porém, sustenta também que o conhecimento de base empírica não pode prescindir de elementos racionais, tanto que só adquire validade universal quando os dados sensoriais são ordenados pela razão (“todo o acontecimento tem uma causa”).
Segundo palavras do próprio autor, “os conceitos sem as intuições são vazios; as intuições sem os conceitos são cegas”.
Para ele, o conhecimento é sempre uma subordinação do real à medida do humano, sem que se possa saber se o conhecemos verdadeiramente ou não. O racionalismo crítico de Kant inaugurou a filosofia contemporânea e marca ainda o ambiente espiritual do nosso mundo.
Conclui-se então, que, pela óptica do criticismo, o conhecimento implica sempre uma contribuição positiva e construtora por parte do sujeito cognoscente em razão de algo que está no espírito, anteriormente à experiência do ponto de vista gnosiológico.
B) O Conhecimento Quanto à Essência
Nessa parte do estudo, analisaremos o domínio da Teoria do Conhecimento em que há mais divergências, sendo estas fundamentais para o pleno conhecimento do assunto, que é o realismo e o idealismo.
Contudo, alguns autores, em especial os materialistas, consideram esta terminologia errada.
Estar-se-ia, segundo eles, a misturar um termo da ontologia (teoria do Ser: “Idealismo” – a essência ontológica é a Ideia ou o Espírito) com um da gnosiologia (teoria do conhecimento: “Realismo” – é possível conhecer a realidade).
Esta mistura indicia uma concepção gnoseológica idealista oriunda do século XIX (neokantismo: Cassirer – 1874-1945), que remete o realismo para o âmbito de uma tomada de posição possível acerca da essência (ontológica) da realidade, que os neokantianos consideram irresolúvel, considerando-se não-realistas, pois para eles não é possível declarar o que quer que seja acerca da realidade. O idealismo consistiria numa tomada de posição subjectivista quanto ao conhecimento, opondo-se portanto ao realismo, partindo da sua própria teoria do conhecimento, que nega, não esta ou aquela essência da realidade, mas a possibilidade de tomar posição. Para eles, a questão da realidade é um absurdo.
Historicamente, a oposição realismo/idealismo surgiu, portanto, no século XIX, no âmbito da filosofia subjectivista do neokantismo, para designar as duas respostas contrárias dadas à questão da possibilidade de conhecer a essência da realidade de um pressuposto mundo exterior.
Esta oposição supõe a separação neokantiana entre dois problemas: o problema ontológico da essência do mundo exterior (irresolúvel e mesmo absurdo para os neokantianos), cuja cognoscibilidade seria, pelo contrário, defendida pelos realistas, quer idealistas quer materialistas. Os criticistas (idealistas subjectivos) consideravam impossível o conhecimento do real como instância independente do sujeito do conhecimento e as condições do próprio conhecimento impediriam para eles qualquer tomada de posição teórica quanto à realidade ontológica.
A teoria do conhecimento, como disciplina autónoma, indiferente a questões ontológicas, surge, efectivamente, com a colocação dos seguintes problemas: a) o da mera existência ou não de um mundo exterior, sem interrogação sobre a sua essência (Kant defendia haver um mundo exterior mas incognoscível, ao contrário dos neokantianos, que o punham entre parêntesis); b) o da possibilidade do conhecimento objectivo, no sentido de poder operar sobre os fenómenos sensíveis e de ser comunicável.
Estes dois problemas (existência da realidade do mundo exterior, possibilidade do conhecimento objectivo) seriam, para os subjectivistas, puramente gnosiológicos, deveriam estar separados da questão da essência da realidade em si-mesma, independente do sujeito.
O realismo aparece, pois, entre os neokantianos, na acepção duma tese acerca da substância do mundo, oposta ao idealismo. Eles declaram-se, pois, nem realistas nem idealistas, colocando-se numa posição neutra, agnóstica.
Podemos propor uma outra terminologia menos ligada a essa filosofia particular, menos datada.
Realismo é, na terminologia que propomos agora, não delimitada pelo agnosticismo, um termo gnosiológico: designa a concepção segundo a qual é possível o conhecimento da realidade objectivamente e opõe-se, nesse domínio, ao nominalismo, ao subjectivismo cognitivo, empírico ou crítico.
Para esta corrente subjectivista filosófica da gnosiologia não há meio de confirmar se as teorias que produzimos representam o conteúdo da realidade, o conhecimento não passando de nomes ou de arranjos lógicos de conceitos que expressam mais a natureza do sujeito (a sua percepção, gramática, lógica, valores) do que do objecto.
(Antecipando o pós-modernismo e o desconstrutivismo – Derrida – 1930-, o “nosso” mundo consistiria num “texto” que leríamos segundo a nossa semântica e gramática especiais. Mas o pós-modernismo há-de igualmente recusar a noção de intersubjectividade, condição de universalidade e de objectividade humana do conhecimento, defensada pelo kantismo e neokantismo, e propor a tese dos contextos relativos e ambíguos dentro dos quais inscrevemos os nossos pensamentos.)
O idealismo, por seu lado, pode ser realista, isto é, objectivo (Hegel – 1770-1831), ou, pelo contrário, subjectivo, no domínio das questões gnosiológicas, mas identifica-se na concepção do mundo (ontologia) segundo a qual a realidade originária, criadora e essencial, é espiritual, divergindo apenas na questão do valor do conhecimento.
O realismo, por sua vez, pode ser idealista ou materialista, sustentando que conhecemos ou uma realidade, espiritual na sua essência (Hegel – 1770-1831), ou uma realidade material (Marx – 1818-1883).
• Realismo (idealista ou materialista)
Sabendo que a palavra realismo vem do latim res (coisa), podemos conceituar essa corrente como a orientação ou atitude espiritual que implica uma preeminência do objecto, dada a sua afirmação fundamental de que nós conhecemos coisas. Por outras palavras, é a independência ontológica da realidade, ou seja, a forma e o conteúdo cognitivo do sujeito são função do objecto.
O realismo é subdividido em duas espécies: o realismo ingénuo e o filosófico.
1- O realismo ingénuo, ou do senso-comum, também conhecido como pré-filosófico, é aquele em que o homem aceita a identidade de seu conhecimento com as coisas que sua mente menciona, sem formular qualquer questionamento a respeito de tal coisa. É a atitude do homem comum, que conhece as coisas e as concebe tais e quais aparecem.
2- Já o realismo filosófico, reflexivo, é aquele em que há uma indagação a respeito dos fundamentos, há uma procura em demonstrar se as teses são verdadeiras, surgindo, com efeito, uma atitude propriamente filosófica na linha realista de Platão – c. 429-347 a. C., Aristóteles – 384-322 a. C., Descartes – 1596-1650, Hegel – 1770-1831, Marx – 1818-1883, etc.
Há portanto, no realismo, uma tese ou doutrina fundamental de que existe uma correlação ou uma adequação da inteligência a “algo” como objecto do conhecimento (‘adequatio rei et intelectus’), de maneira que nós conhecemos quando a nossa sensibilidade e inteligência se conformam a algo de exterior a nós.
De acordo com o modo de compreender-se essa “referência a algo”, bifurca-se o realismo em tradicional e o crítico, que são as duas linhas pertinentes à filosofia.
• Idealismo (realista ou subjectivista)
Surgiu na Grécia Antiga com Platão, denominado de idealismo transcendente, onde as ideias ou arquétipos ideais representam a realidade verdadeira, da qual as realidades sensíveis seriam meras cópias imperfeitas, sem validade em si mesmas, mas mantendo com elas uma semelhança enquanto participam do ser essencial. 1- O idealismo de Platão reduz o real ao ideal, resolvendo o ser em ideia, pois como ele já dizia, as ideias são o sol que ilumina e torna visíveis as coisas. Assim, só há “justiça” no mundo na medida em que é a manifestação da “Justiça” real, isto é, ideal no sentido platónico.
Alguns autores, subjectivistas, entendem que a doutrina platónica poderia ser vista como uma forma de realismo, pois para eles, o idealismo “verdadeiro” é aquele desenvolvido a partir de Descartes.
2- O que a teoria do Teoria do Conhecimento originária, na medida em que foi criada pelo neokantismo ou idealismo subjectivo criticista, como problema distinto do ontológico, como disciplina distinta, é o idealismo imanentista. Este afirma que as coisas não existem por si mesmas, mas na medida e enquanto são representadas ou pensadas, de maneira que só se conhece aquilo que se insere no domínio de nosso espírito e não as coisas como tais. Subordina-se tudo às formas espirituais ou esquemas mentais.
No idealismo subjectivo, que é a compreensão do objecto como representação, o homem cria um objecto com os elementos de sua subjectividade, sem que algo preexista ao objecto (no sentido gnosiológico).
Sintetizando, o idealismo subjectivo é a doutrina ou corrente de pensamento que subordina ou reduz o conhecimento à representação ou ao processo do pensamento mesmo, por entender que a verdade das coisas está menos nelas do que em nós, na nossa consciência ou na nossa mente, no facto de serem “percebidas” ou “pensadas” como resultado directo de estímulos sensoriais que ocorrem dentro da nossa psique.
Esta concepção, reforçamos, é a do idealismo subjectivo, ou empirismo, onde o que se conhece não são as coisas e sim as percepções e as suas relações associativas determinadas por processos subjectivos.
Podemos então conceituá-lo como aquela doutrina que defende a tese de que os dois pólos do conhecimento (sujeito-objecto) se situam no plano da consciência, revelando-se como momentos da nossa vida interior.
O idealismo subjectivo diz que o homem não conhece as coisas, e sim a representação que a nossa consciência forma dos estímulos sensoriais. Os seus representantes clássicos são Locke (em parte), Hume e Berkeley – 1685-1753. O idealismo subjectivo, enquanto gnoseologia, confunde-se pois com o empirismo.
3- Por último, podemos citar o criticismo (ontologicamente realista mas gnosiologicamente idealista), representado, à máxima altura, por Kant – 1724-1804, que é a linha do realismo que acentua a necessidade de verificação das condições subjectivas do conhecimento. Separa-se assim do realismo idealista clássico, por vezes dito dogmático.
A indagação de Kant consiste em distinguir as camadas da estrutura e do processo cognitivo na constituição do objecto, concluindo pela relação funcional, operatória, sujeito-objecto. Acaba, pois, por negar a possibilidade de descobrir se há ou não correspondência entre a teoria e a realidade em si mesma.
Para os seguidores desta doutrina, conhecer é sempre conhecer algo posto fora de nós, mas que, se há conhecimento de algo, não nos é possível verificar se o objecto – que a nossa subjectividade compreende – corresponde ou não ao objecto tal qual é em si mesmo.
4- Existe uma outra orientação idealista, que é de natureza ontológica. Parte da afirmação de que só conhecemos o que se converte em pensamento, o que é conteúdo de pensamento, e o pensamento é o próprio objecto real. Ou seja, o ser não é outra coisa senão ideia.
O seu maior representante, Hegel – 1770-1831, diz numa das suas obras que nós só conhecemos aquilo que elevamos ao plano do pensamento, na medida em que o pensamento é a própria realidade como realidade espiritual.
Resumindo de maneira algo grosseira: na atitude psicológica ou subjectiva, o objecto é representação e, na atitude ontológica, o objecto do conhecimento é o Ser pensado.
C) Possibilidade do Conhecimento
Essa parte da teoria do conhecimento é responsável por solucionar a seguinte questão: qual a possibilidade do conhecimento?
Para que seja possível respondê-la, muitos autores recorrem a duas importantes posições, uma erradamente designada por dogmatismo, porque é um qualificativo que não pode ser aplicado a todos os autores que defendem que o conhecimento é possível, e a outra o cepticismo, as quais veremos abaixo.
• Objectivismo (Realismo Cognitivo), erradamente intitulado de Dogmatismo
É a corrente que se julga em condições de afirmar a possibilidade de conhecer verdades universais quanto ao ser, à existência e à conduta, transcendendo o campo das puras relações fenomenais e sem limites impostos a priori à razão.
Existem duas espécies de objectivismo: o total (dogmático) e o parcial (racionalismo crítico).
1- O objectivismo total é aquele em que a afirmação da possibilidade de se alcançar a verdade ultima é feita tanto no plano da especulação, quanto no da vida pratica ou da Ética.
Esse dogmatismo intransigente, quase não é adoptado, devido à rigorosidade de adequação do pensamento. Porém, encontramos em Hegel a expressão máxima desse tipo de dogmatismo, pois, existe nas suas obras uma identificação absoluta entre pensamento e realidade. Como o próprio autor diz “o pensamento, na medida em que é, é a coisa em si, e a coisa em si, na medida em que é, é o pensamento puro”.
2- Já o objectivismo parcial ou relativo, adoptado em maior extensão, tem um sentido mais atenuado, na intenção de afirmar-se a possibilidade de se atingir o conhecimento da realidade mas somente em dadas circunstâncias e modos (teóricos e práticos) quando não apenas sob certo prisma, ou seja, sempre de maneira incompleta e relativa a um determinado aspecto de entre todos os que constituem o real, escapando muitos deles, provisoriamente o não, ao conhecimento actual.
O objectivismo relativo consiste na crença no poder da razão como instrumento de acesso ao real em si, embora sem esgotar a realidade no seu conhecimento.
Marx – 1818-1883 – é um caso de realista relativo, adoptando, ao contrário de Hegel, uma doutrina materialista do mundo, o qual não separa – sendo nisso semelhante ao idealismo absoluto – a ontologia (teoria do ser ou da realidade) da gnosiologia (teoria do conhecimento).
3- É, no entanto, preciso também distinguir estes objectivistas cognitivos parciais (racionalistas que acreditam na possibilidade do conhecimento, ainda que sempre parcial e provisório, sujeito a revisão) duma outra corrente do objectivismo, normalmente designados por racionalistas críticos (em oposição ao empirismo crítico de Hume).
Repare-se ainda que alguns dos racionalistas críticos combinam idealismo subjectivo na gnosiologia com realismo ontológico – julgam-se aptos para afirmar a verdade absoluta no plano da acção, em particular quanto à sua forma ou princípios gerais da conduta independentes do conteúdo concreto desta.
Portanto, alguns filósofos eram e são adeptos do realismo teórico mas eram e são todavia assaltados por dúvidas no plano do agir ou da conduta humana. Daí se origina a distinção entre objectivismo teórico e objectivismo ético. É o caso de Kant.
Entretanto, outros somente admitem tais verdades no plano especulativo, como o caso de Blaise Pascal, que não duvidava de seus cálculos matemáticos e da exactidão das ciências enquanto ciências mas, sendo sintomático ter sido o criador do cálculo das probabilidades, concebia a moral como uma aposta com mais hipóteses de ser verdadeira.
• Cepticismo
Consiste, grosso modo, numa atitude dubitativa ou uma provisoriedade constante, mesmo a respeito de opiniões emitidas no âmbito das relações empíricas. Essa atitude nunca é abandonada pelo cepticismo, mesmo quando são enunciados juízos sobre algo de maneira provisória, sujeitos a refutação à luz de sucessivos testes.
O cepticismo distingue-se das outras correntes por causa de sua posição de reserva e de desconfiança em relação a tudo o que se possa dizer sobre os actos e os objectos do conhecimento, tanto no plano da experiência efectiva, empírica, quanto ao nível da teoria do conhecimento.
Há todavia no cepticismo – assim como se viu no dogmatismo – uma tendência absoluta e outra parcial, mas esta última não será discutida nesse texto.
1- O cepticismo absoluto é oriundo da Grécia e também denominado Pirronismo, que, a bem da verdade, é uma distorção exagerada da doutrina de Pirro – c.365-275 a. C.
Esta, em todo o caso, prega a necessidade da suspensão do juízo, dada a impossibilidade de qualquer conhecimento certo. Ele envolve tanto as verdades metafísicas (da realidade em si mesma), quanto as relativas ao fundo, à razão de ser dos fenómenos, embora advogue que devemos jogar pelo seguro fiando-nos nos fenómenos na nossa experiência quotidiana. É melhor não atravessarmos a rua fora das passadeiras.
Segundo essa corrente, o homem não pode pretender nenhum conhecimento por não haver adequação possível entre o sujeito cognoscente e o objecto conhecido. Ou seja, para os cépticos absolutos, não há outra solução para o homem senão a atitude de não formular problemas, dada a equivalência fatal de todas as respostas: é impossível decidir pela verdade ou falsidade de um juízo acerca do que quer que seja.
Agora, venham e escolham
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